Fornecedores de abortivos quase sempre estão ligados a farmácias

Por Renata Mariz – Correio Braziliense

Pessoas de referência da comunidade, que atuaram ou ainda atuam em balcões de farmácias, passam instruções de como usar o medicamento muitas vezes em pedaços de papel improvisados e garantem que tudo dará certo representam uma face dos vendedores de abortivos no país. Elas também assediam sexualmente suas “clientes”, recusam-se a socorrê-las quando enfrentam complicações e as desestimulam a procurar ajuda médica. Os dados, levantados pela pesquisa Quando o aborto se aproxima do tráfico, realizada pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Anis — Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, revelam o perfil de um agente importante na prática clandestina de interrupção da gravidez.

As informações vêm da análise minuciosa de 10 processos judiciais e inquéritos policiais contra mulheres e vendedores denunciados pelo Ministério Público do Distrito Federal. Devido à metodologia aplicada, o estudo ganhou aval da revista científica Ciência & Saúde Coletiva, onde será publicado. Somente um caso, entre as peças pesquisadas, refere-se ao fornecedor ou traficante. O restante alcançou no máximo o “vendedor de Cytotec”, como o intermediário geralmente é conhecido pela comunidade. A análise mostrou também que o vendedor quase sempre comercializa outros produtos proibidos, como estimulantes sexuais, anabolizantes e drogas emagrecedoras.

Em um único caso, foram encontradas armas e munições no depósito do vendedor do abortivo. Para a Polícia Federal (PF), o dado não é surpreendente. “Sabemos que a maior parte desses medicamentos proibidos no Brasil vem do Paraguai e entra por portos e aeroportos com outras coisas, como drogas, armas e munições”, ressalta Josemauro Pinto Nunes, da coordenação da Unidade de Repressão ao Contrabando e Descaminho da PF. As mulas (pessoas que trazem do país vizinho os objetos contrabandeados), explica o delegado, são financiadas por redes criminosas. “A gente sabe disso porque, quando são pegos na fronteira e chegam à delegacia, já têm um advogado lá, à espera.”

Além do risco inerente ao contato com a clandestinidade, ao comprarem o abortivo sem procedência, muitas vezes vendido em envelopes, a preço 30 vezes superior ao valor de mercado em países onde são legais, as mulheres cujas histórias foram analisadas na pesquisa da UnB/Anis mostram outras vulnerabilidades.

Em um dos casos estudados, onde constam até escutas telefônicas, o vendedor insinua levar a mulher a um motel, “dar um trato” nela e depois inserir os comprimidos com o próprio pênis. Foi também registrada a coação do intermediário para que a mulher, sangrando sem parar, não procurasse socorro. O marido, em depoimento, repetiu as palavras do vendedor: “(Ele disse que) era assim mesmo (…), que não voltaria naquele momento, pois estava ocupado”. A esposa morreu em menos de uma semana.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Estado laico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s